Olympikus: De "Tenho Vergonha de Usar" à Marca #1 nos Pés do Corredor Brasileiro
Em 2022, 6% dos corredores da Maratona de São Paulo usavam Olympikus. Em 2024, eram 22% — mais do que a Nike. Em 2025, a Vulcabras atingiu R$4,2 bilhões de receita com 22 trimestres consecutivos de crescimento. Este é o case de reposicionamento mais completo do varejo esportivo brasileiro.
Capítulo 1
O Estigma: o Que Era a Olympikus Antes da Virada
Por décadas, a Olympikus foi sinônimo de uma única coisa no imaginário do consumidor brasileiro: o tênis que você usa quando não tem dinheiro para comprar um de verdade. Fundada em 1975 como braço esportivo da Calçados Azaléia — parte do Grupo Vulcabras — a marca nasceu como resposta local às importações esportivas que começavam a chegar ao Brasil.
O problema não era o produto — era a percepção. Enquanto Nike e Adidas construíam narrativas de performance, aspiração e identidade cultural nas décadas de 1980 e 90, a Olympikus permanecia presa em um posicionamento de "alternativa acessível". O cliente não comprava Olympikus para expressar quem era — comprava quando não havia outra opção. O próprio título do artigo do O Globo que escorou esse case captura o sentimento com precisão: "Tenho vergonha de comprá-lo."
Entre 2011 e 2014, o cenário ficou ainda mais sombrio. A empresa atravessou uma reestruturação profunda, cortando custos, ajustando margens e tentando sobreviver à pressão das marcas internacionais que dominavam o mercado premium e o aspiracional. A Olympikus estava presa no pior dos mundos: nem barata o suficiente para competir com chinesas, nem tecnológica o suficiente para competir com as globais.
Síntese da virada estratégica
"Em vez de tentar ser a Nike brasileira, a Olympikus decidiu abraçar o corredor brasileiro — aquele de verdade, que corre na rua, no parque, no domingo de manhã."
— Márcio Callage, CMO da Vulcabras
A virada não veio de um insight publicitário. Veio de uma decisão estratégica radical: parar de tentar ser o que a empresa não era e se tornar o líder do território que ninguém havia reivindicado com seriedade — o corredor amador brasileiro.
Capítulo 2
O Gatilho: Por Que a Corrida de Rua Era o Território Certo
A escolha da corrida de rua como território prioritário não foi aleatória. Era a intersecção entre uma onda cultural em ascensão e uma lacuna competitiva que as grandes marcas não estavam preenchendo.
A corrida de rua no Brasil não é um esporte de elite — é um movimento de massa com alma de comunidade. Diferente do triathlon ou do ciclismo, correr pede apenas um par de tênis e disposição. Isso significava que o maior grupo de praticantes estava na classe média-baixa e na classe C — exatamente onde a Olympikus tinha credibilidade histórica de preço.
Mas a sacada não foi só demográfica. Foi estratégica. Nas palavras do CMO Márcio Callage: "A corrida é nossa Fórmula 1." Assim como a F1 é o laboratório tecnológico que legitima as montadoras, a corrida de rua seria o laboratório de performance que legitimaria a Olympikus como marca técnica séria — e não apenas popular.
A Lacuna Que Ninguém Via
Nike, Adidas e Asics investiam pesado em corredores de elite — maratonistas com tempos abaixo de 2h45, atletas com patrocínio individual. O corredor que termina em 5h30, que corre 10km no domingo com o grupo do WhatsApp, que comprou o primeiro tênis há três meses — esse corredor estava órfão de marca. Era exatamente esse público que a Olympikus decidiu tornar seu.
O Estudo Que Confirmou a Aposta
Em parceria com a Box 1824 — instituto de pesquisa de tendências comportamentais — a Olympikus encomendou o maior estudo já realizado sobre a cultura da corrida no Brasil. O resultado confirmou a hipótese: a corrida de rua era muito mais do que esporte. Era identidade, pertencimento, saúde mental e classe social em movimento ascendente. Uma geração inteira estava descobrindo correr — e ainda não havia uma marca brasileira que falasse diretamente com ela.
Capítulo 3
A Virada: as 5 Decisões que Mudaram Tudo
Reposicionamento de marca não acontece em um anúncio. Acontece em uma série de decisões difíceis — muitas das quais envolvem dizer não para oportunidades de curto prazo para proteger a coerência de longo prazo. A Olympikus tomou cinco decisões estruturantes que definiram a virada.
A Filosofia por Trás das Decisões
Callage resume a filosofia que guiou todas essas decisões em quatro verbos: escutar, testar, ajustar e entregar. E em uma frase que soa simples mas é difícil de praticar: "definir é limitar". A Olympikus não se definiu como "marca de tênis barato" nem como "marca de corredor de elite" — ela se definiu como marca do corredor brasileiro. Um território amplo o suficiente para crescer, específico o suficiente para ser defensável.
Capítulo 4
Produto: a Vantagem Operacional Que Ninguém Esperava
O reposicionamento de marca seria inútil sem um produto à altura. E foi aqui que a Olympikus descobriu uma vantagem estrutural que as marcas internacionais simplesmente não conseguem replicar: a velocidade e a localização da produção brasileira.
| Dimensão | Olympikus 🇧🇷 | Concorrentes Globais |
|---|---|---|
| Desenvolvimento de produto | 4 meses do conceito ao mercado | 12 meses (3× mais lento) |
| Entrega ao varejo | 5 semanas | 20 semanas (4× mais lento) |
| Preço do flagship | ~R$700 | R$1.500+ (2× mais caro) |
| Capacidade de produção | 800 novos modelos/ano | Limitados por cadeia global |
| Adaptação ao mercado local | Solado mais largo, tecido respirável para clima tropical | Modelos globais sem adaptação |
| Energia de produção | 100% energia limpa — fator de pauta ESG | Produção majoritariamente na Ásia |
Essa velocidade não é só logística — é vantagem competitiva de produto. Quando um corredor influente apontou um problema de amortecimento em um modelo específico, a Olympikus conseguiu ajustar e relançar em quatro meses. Uma marca global levaria um ciclo inteiro de desenvolvimento para responder ao mesmo feedback.
O DNA Brasileiro Como Diferencial Técnico
O clima brasileiro exige tênis diferentes dos desenvolvidos para o inverno europeu ou as pistas secas americanas. A Olympikus investiu nisso: solado mais largo para a biomecânica média do corredor brasileiro, tecidos com maior transpiração para o calor e umidade tropicais, amortecimento calibrado para asfalto quente. Funcionalidades que as marcas globais não priorizam porque não são problemas no mercado de origem delas.
O auge dessa trajetória tecnológica foi o lançamento de um "super shoe" com placa de fibra de carbono e tecnologia de grafeno — desenvolvido 100% internamente, em parceria com a USP, ao custo de cerca de R$700 no varejo contra R$1.500 dos equivalentes importados. Não era só marketing: era comprovação de que engenharia nacional podia sentar à mesa com as melhores do mundo.
Investimento de R$600 Milhões
Nos últimos cinco anos, a Vulcabras investiu mais de R$600 milhões em P&D e modernização fabril. Apenas nos primeiros nove meses de 2023, foram R$131 milhões em equipamentos e maquinário. Isso não é marketing — é a base estrutural que torna a promessa de marca sustentável no longo prazo.
OLYLAB: o Laboratório de Porto Alegre
Pouco visível externamente mas central para a estratégia de produto, o OLYLAB é o centro de inovação e tecnologia da Vulcabras instalado em Porto Alegre. É de lá que saem os testes de biomecânica, os protótipos, as iterações de materiais e as parcerias com a USP. O OLYLAB é o equivalente esportivo de um laboratório de P&D farmacêutico — e o fato de estar em solo brasileiro, próximo do time de produto e dos atletas testadores, elimina o ciclo de feedback que marcas globais não conseguem comprimir.
Capítulo 5
A Família Corre: Quatro Gerações de Evolução Tecnológica
A linha "Corre" é a submarca mais importante da história recente da Olympikus. Não é apenas um modelo de tênis — é uma família de produtos que documenta a evolução tecnológica da empresa e serve como principal argumento de performance para o corredor amador. Cada geração incorporou uma inovação real, validada pela USP ou pelos resultados em provas.
Primeiro tênis de corrida do mundo com grafeno integrado ao solado. Ganho de durabilidade e tração sem aumento de peso. 9 pódios na Maratona de São Paulo 2022 — o dado que virou prova social definitiva.
Desenvolvido em cocriação direta com o Laboratório de Biomecânica da USP. Foco em amortecimento para corredor de longa distância — o perfil do corredor amador brasileiro médio, que corre 10km a 21km por semana.
O modelo mais vendido da história da Olympikus. Combinação de grafeno no solado externo com midsole de alta amortização. Cocriado com corredores, influenciadores e jornalistas especializados — o produto que consolidou o reposicionamento.
Placa de fibra de carbono + grafeno — o 'super shoe' brasileiro. Desenvolvido 100% internamente com OLYLAB e USP. ~R$700 vs. R$1.500+ dos equivalentes da Nike e Adidas. Edições especiais Outubro Rosa confirmam papel cultural da linha.
O Dado que Mudou Tudo
Quando o Corre Grafeno registrou 9 pódios na Maratona de São Paulo 2022, a Olympikus não precisou de campanha. O dado se tornou notícia espontânea em veículos esportivos, portais de running e grupos de WhatsApp de corredores. É o equivalente esportivo de um produto sendo escolhido por profissionais em condições reais — credibilidade que nenhum anúncio compra.
Além da linha Corre, a Vulcabras opera no Brasil a licença da Under Armour — o que lhe dá acesso a uma segunda marca para segmentos premium e esportes além da corrida, sem canibalizar o posicionamento da Olympikus. Essa arquitetura de portfolio é invisível para o consumidor mas fundamental para a estratégia financeira da empresa.
Capítulo 6
Atletas: Elite Como Laboratório, Amador Como Cultura
A estratégia de atletas da Olympikus é deliberadamente binária — e essa dualidade é o que a torna inteligente. De um lado, atletas de elite que provam que o produto funciona no limite do desempenho humano. De outro, corredores amadores que provam que o produto funciona para a vida real do brasileiro comum.
O Ativo de Elite: Alison dos Santos
Alison dos Santos — "Piu"
Alison dos Santos é o maior nome do atletismo brasileiro da atualidade e um dos melhores corredores de 400m com barreiras do mundo. Nascido em Juiz de Fora/MG, começou a correr como alternativa ao futebol e se tornou recordista sul-americano, campeão mundial e medalha olímpica usando o sobrenome que a Olympikus precisava: um brasileiro vencedor em nível global.
Para a Olympikus, patrocinar Piu não é só visibilidade — é argumento técnico. Quando um atleta que compete contra os melhores do mundo escolhe calçar uma marca brasileira, o corredor amador que estava em dúvida entre o Corre 3 e um importado recebe uma resposta emocional que nenhum dado de biomecânica consegue dar.
Por Que Piu é Diferente de um Endorsement Comum
A maioria dos patrocínios de atletas funciona assim: a marca paga, o atleta aparece na campanha, os fãs associam. A Olympikus foi além: Piu participa de ativações presenciais com grupos de corrida, aparece em conteúdo educativo sobre técnica de corrida e serve como prova implícita de que a marca investe de verdade no ecossistema do atletismo brasileiro — não apenas na vitrine.
A Camada Amadora: os Pacers e Embaixadores de Rua
Paralelamente a Piu, a Olympikus mantém uma rede de pacers e embaixadores locais — corredores amadores que terminam maratonas entre 3h e 4h30, que treinam em grupos de bairro e que são figuras respeitadas na comunidade de corrida sem ser celebridades. Esses embaixadores são mais importantes do que os atletas de elite para a decisão de compra do corredor médio.
A lógica é clara: o corredor que vai comprar o primeiro tênis de corrida de verdade não se identifica com quem corre 400m com barreiras em 47 segundos. Mas ele se identifica com o cara do grupo que correu a São Silvestre em 1h15 e usa Olympikus todo domingo. A estratégia de atletas em dois níveis é o que permite à marca ser aspiracional sem ser inacessível.
Elite: Laboratório e Legitimidade
- ▪Alison dos Santos — campeonatos mundiais e olimpíadas
- ▪9 pódios do Corre Grafeno na Maratona SP 2022
- ▪Argumento técnico: 'o produto funciona no limite'
- ▪Cobertura de mídia espontânea por resultados
- ▪Âncora para a linha Corre 4 (super shoe, carbono)
Amador: Comunidade e Conversão
- ▪Pacers em 200+ grupos de corrida locais
- ▪Embaixadores nos grupos de WhatsApp de corrida
- ▪Visibilidade semanal nos treinos — sem custo de mídia
- ▪Decisor de compra para o corredor iniciante
- ▪Âncora para o Corre 3 (o modelo de maior volume)
Capítulo 7
Comunidade Como Canal de Marketing: o Ecossistema do Corre
A grande sacada de comunicação da Olympikus foi entender que, para o corredor amador, o grupo de corrida não é apenas um hobby — é identidade. E a marca que está presente nesse grupo não é percebida como patrocinadora: é percebida como parte da comunidade.
O Ecossistema do Corre — nome dado internamente à estratégia — funcionava em múltiplas camadas simultâneas:
Presença Física
- ▪Patrocínio de grupos de corrida locais — não só grandes provas
- ▪Pacers e embaixadores em provas regionais
- ▪Brindes e ativações nos pontos de encontro dos grupos
- ▪50 provas patrocinadas no ano de 50 anos da marca (2025–2026)
- ▪Kits exclusivos para grupos parceiros
Presença Digital
- ▪Conteúdo produzido com e para corredores reais
- ▪YouTubers e criadores como colaboradores, não como mídia
- ▪Campanha 'Correr Transforma' com stories de corredores comuns
- ▪Strava como plataforma de dados de adoção real
- ▪Engajamento com reviews orgânicos — sem compra de opinião
O resultado foi uma inversão de lógica de marketing. Em vez de criar awareness para gerar demanda, a Olympikus gerou pertencimento para criar advocates. Um corredor que usa Olympikus no grupo de corrida está fazendo propaganda para 15 pessoas toda semana — sem nenhum custo de mídia.
"O desafio é se tornar um publisher que pensa conteúdo — não fazer propaganda. Construir uma marca que encontre a identidade do corredor brasileiro."
— Márcio Callage, CMO da Vulcabras
Em 2023, o Strava — maior plataforma global de registro de treinos — confirmou a Olympikus como a marca número 1 usada pelos corredores brasileiros. Não foi resultado de uma campanha de mídia: foi resultado de dois anos de comunidade construída tijolo por tijolo, grupo por grupo, prova por prova.
Capítulo 8
Causa Como Canal: Outubro Rosa e Marketing de Pertencimento
Além do ecossistema de corrida, a Olympikus desenvolveu uma camada de marketing de causa que amplifica seu alcance sem diluir o posicionamento esportivo. A estratégia de causa não é um desvio do território de corrida — é uma extensão dele para um público específico: a mulher corredora.
Outubro Rosa: Mais do Que uma Edição Especial
Desde 2024, a Olympikus lança uma edição especial do Corre 4 para o Outubro Rosa — a campanha de conscientização sobre o câncer de mama. A edição não é só um product color-swap. A estratégia inclui patrocínio de corridas femininas em capitais brasileiras, conteúdo com mulheres corredoras sobreviventes de câncer de mama e ativação nos grupos de corrida femininos que cresceram exponencialmente no Brasil nos últimos cinco anos.
Correr Transforma: a Campanha que Humanizou a Marca
A campanha "Correr Transforma" foi o movimento de conteúdo mais bem-sucedido da Olympikus fora do eixo produto. Em vez de mostrar atletas correndo em cenários produzidos, a campanha documentou histórias reais de transformação pessoal conectadas à corrida: o autônomo que perdeu 40kg, a médica que superou depressão pós-parto treinando para a São Silvestre, o adolescente da periferia que entrou na universidade com bolsa depois de ser descoberto em um grupo de corrida de base.
Essas histórias não tinham Olympikus no centro — tinham a corrida no centro. A Olympikus estava apenas presente. Essa é a diferença entre marketing de marca e propaganda de produto. O brand não precisa gritar quando está no lugar certo.
Causa Sem Propósito-Washing
A Olympikus evitou o erro mais comum do marketing de causa: associar-se a pauta sem operação real por trás. Cada ação de Outubro Rosa veio com evento físico, corrida patrocinada, presença da marca no ponto de vendas das cidades e conteúdo produzido por mulheres corredoras reais. Não foi só uma paleta rosa na embalagem — foi um programa de ativação que durou o mês inteiro.
Capítulo 9
Os Números da Transformação
Estratégia sem resultado é hipótese. Os números da Vulcabras contam a história de uma empresa que executou certo — e os mercados notaram.
O Mercado de Capitais Como Termômetro
A valorização de +67,9% das ações VULC3 em 2023 não foi acidente de mercado — foi o mercado de capitais precificando uma mudança estrutural real na empresa. Investidores leram nos resultados o que o CMO havia descrito anos antes: não era uma virada de ciclo, era uma mudança de posicionamento com resultado comprovado em prova social, dados de adoção e crescimento de margem. Quando estratégia e execução se alinham, o mercado percebe.
Capítulo 10
Internacionalização: o "Made in Brazil" Como Argumento Global
Em 2025, a Vulcabras anunciou parceria de distribuição na Espanha — o primeiro passo formal de internacionalização da Olympikus. A escolha da Espanha não é aleatória: é um mercado de corrida maduro, com cultura de prova de rua sólida, e onde o "Made in Brazil" carrega conotações positivas de diversidade e autenticidade que não existem no mesmo grau no mercado americano ou asiático.
Espanha — Passo 1
Parceria de distribuição anunciada em 2025. Mercado de corrida maduro, afinidade cultural com o Brasil e segmento premium de running em crescimento. O Corre 4 com placa de carbono é o produto de entrada — preço competitivo vs. Vaporfly e Adizero.
América do Sul — Próximo
Argentina, Chile e Colômbia como mercados naturais de expansão. Mesma cultura de corrida de rua, padrões climáticos parecidos que tornam o produto desenvolvido para o Brasil relevante — e proximidade logística que a Vulcabras domina.
ESG como argumento europeu
'Made in Brazil com 100% de energia limpa' vira argumento de ESG no mercado europeu, onde regulações de sustentabilidade estão moldando as decisões de compra. A Vulcabras antecipou uma vantagem regulatória sem planejar diretamente para ela.
Atletas como passaporte
Alison dos Santos compete em provas internacionais usando produtos Olympikus — o que gera visibilidade orgânica em mercados onde a marca ainda não está presente. Antes da distribuição formal, a marca já existe no imaginário dos fãs de atletismo global.
A internacionalização da Olympikus é o teste definitivo da tese de reposicionamento. Se o produto e o posicionamento funcionaram para reverter um estigma dentro do Brasil, eles precisarão funcionar para construir uma reputação do zero em mercados onde a marca não carrega nem o estigma nem a memória afetiva. É um desafio diferente — e é exatamente esse tipo de desafio que define se um reposicionamento foi de verdade ou se foi circunstancial.
"A Olympikus chegou ao seu 50º aniversário não comemorando sobrevivência — comemorando liderança. O próximo capítulo é a marca que saiu da vergonha para o orgulho nacional tentar repetir esse feito em outro idioma."
— Matheus Mundim · V4 Mundim & Co
Capítulo 11
O Que Qualquer Marca Pode Aprender com a Olympikus
O case da Olympikus não é sobre tênis. É sobre o que acontece quando uma empresa para de tentar ser algo que não é — e decide ser, com toda a consistência possível, exatamente o que ela pode ser melhor do que qualquer outra. As lições são transferíveis para qualquer marca, em qualquer setor.
Escolha o Território que Você Pode Ganhar — Não o Maior
A Olympikus poderia continuar tentando competir com Nike em todos os segmentos. Em vez disso, escolheu o corredor amador brasileiro — um território específico onde podia ser genuinamente melhor. A especificidade do posicionamento é o que cria defensabilidade. Quem tenta ser tudo para todos não tem clientes que o defendem.
Dizer Não é uma Estratégia de Marketing
Recusar patrocínios fora do universo esportivo pareceu custo de curto prazo — e era. Mas cada 'não' comunicava mais sobre o posicionamento da marca do que qualquer campanha paga. Coerência ao longo do tempo cria credibilidade que nenhuma verba de mídia compra.
A Narrativa de Marca Precisa de Produto à Altura
A Vulcabras investiu R$600 milhões em produto antes de comunicar. O reposicionamento de 'tênis barato' para 'tênis técnico brasileiro' só foi possível porque o produto de fato evoluiu. Marca sem produto é promessa sem entrega — e no mundo de reviews em tempo real, essa promessa quebra rápido.
Comunidade Converte Melhor do que Mídia
O corredor que usa Olympikus no grupo toda semana é mais valioso do que 10 mil impressões pagas. Presença em 200 grupos pequenos gera mais vínculo do que um banner em uma prova grande. Comunidade é o canal com maior LTV por investimento — mas exige consistência de anos, não de trimestres.
Vantagem Operacional é Vantagem Competitiva
Quatro meses de desenvolvimento contra doze dos concorrentes não é só eficiência — é capacidade de responder ao mercado em tempo real, lançar em tendências antes que morram e corrigir produtos antes que o problema vire reputação. A proximidade geográfica com o mercado brasileiro é uma vantagem estrutural que nenhum global pode comprar.
'Made in Brazil' Como Orgulho, Não Desculpa
Por anos, ser brasileiro no mercado de tênis era desvantagem percebida. A Olympikus inverteu o frame: solado mais largo para o pé brasileiro, tecido respirável para o clima tropical, produção 100% energia limpa. 'Feito no Brasil' deixou de ser desculpa para preço menor e virou argumento de produto superior para o contexto específico de uso.
Perguntas frequentes
Como a Olympikus se reposicionou de marca popular para líder em corrida?
Através de cinco decisões estruturantes: recusar patrocínios fora do esporte, priorizar comunidades locais antes de grandes eventos, cocriar produtos com corredores reais, firmar parceria técnica com a USP e tratar criadores de conteúdo como colaboradores de produto. O processo levou cerca de 7 anos (2018–2025) e foi sustentado por R$600 milhões em P&D e modernização fabril.
Por que a Olympikus escolheu a corrida de rua como território estratégico?
A corrida de rua reúne 15 milhões de praticantes no Brasil, é o 4º esporte mais praticado, cresce na classe C — onde a Olympikus tinha credibilidade histórica de preço — e estava órfã de marca. Nike, Adidas e Asics focavam corredores de elite, deixando o corredor amador (que termina em 5h30 e corre no domingo com o grupo) sem uma marca que falasse com ele.
Quais foram os números da virada da Olympikus?
Participação na Maratona SP saltou de 6% (2022) para 22% (2024), ultrapassando a Nike. Em 2023 a Vulcabras teve EBITDA recorde e ações VULC3 valorizaram 67,9%. Em 2025, receita de R$4,2 bilhões, EBITDA recorrente de R$763,1M (+13%), 22 trimestres consecutivos de crescimento e a linha Corre representa 87% da receita de calçados esportivos.
Qual a vantagem operacional da Olympikus contra Nike e Adidas?
A produção brasileira permite desenvolver novo produto em 4 meses (vs. 12 das globais), entregar ao varejo em 5 semanas (vs. 20), com flagship a R$700 (vs. R$1.500+) e capacidade para 800 novos modelos por ano. Soma-se a isso adaptação técnica ao corredor brasileiro (solado mais largo, tecido para clima tropical) e produção 100% com energia limpa.
O que é a Família Corre da Olympikus?
É a linha de tênis de corrida que documenta a evolução tecnológica da marca em 4 gerações: Corre Grafeno (grafeno no solado, 9 pódios na Maratona SP 2022), Corre 2 (midsole desenvolvido com USP), Corre 3 GT (modelo mais vendido, cocriado com corredores) e Corre 4 (super shoe com placa de carbono e grafeno, ~R$700 vs. R$1.500+ dos importados). A linha responde por 87% da receita de calçados esportivos da Vulcabras.
Qual o papel de Alison dos Santos na estratégia da Olympikus?
Alison 'Piu' dos Santos — campeão mundial e medalhista olímpico nos 400m com barreiras — é o ativo de elite da marca. Não funciona como endorsement comum: participa de ativações com grupos de corrida, gera conteúdo educativo e prova que a marca brasileira compete no nível global. Em paralelo, a Olympikus mantém uma rede de pacers e embaixadores amadores nos grupos locais, que são os reais decisores de compra para o corredor iniciante.
O que outras marcas brasileiras podem aprender com o case Olympikus?
Seis lições centrais: 1) escolher um território específico que se pode ganhar, não o maior; 2) coerência (dizer não a oportunidades fora do território) constrói credibilidade; 3) marca precisa de produto à altura — investir em P&D antes de comunicar; 4) comunidade converte mais que mídia paga no longo prazo; 5) vantagem operacional local é diferencial competitivo; 6) 'Made in Brazil' pode ser argumento de produto superior, não desculpa por preço menor.