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    On (OnCloud): De Mangueira de Jardim a US$3,3 Bilhões

    Em 2010, três suíços colaram pedaços de mangueira de jardim na sola de um tênis e ganharam o ISPO BrandNew Award. Em 2025, a On Holding AG reportou cerca de US$3,3 bilhões em receita — com Federer como sócio, Zendaya como embaixadora e Loewe como parceira de coleção. Este é o case de como a inovação narrativizada, a parceria cultural autêntica e a distribuição disciplinada constroem uma marca premium global.

    ~18 min Abr 2026Fonte: Zena Zwayyed, MBA · LinkedIn
    US$3,3Bi
    receita em 2025 — partindo de zero em 2010
    12,5%
    do faturamento investido em marketing em 2025 (≈ US$415M)
    30%
    de brand awareness global em 2025
    67
    lojas próprias — 38 delas na China
    Nota sobre os valores: os números originais reportados pela On Holding AG estão em francos suíços (CHF). Para facilitar a leitura, todos os valores foram convertidos para dólares americanos (USD) usando câmbio estimado de 1 CHF ≈ US$1,10. As variações cambiais reais podem alterar levemente os números absolutos, mas não afetam as proporções, percentuais e leitura estratégica do case.

    Contexto

    Origem: Quando o Produto Já É o Pitch

    A história de origem da On é um ativo de marketing em si — e a marca sabe disso. Olivier Bernhard, ex-triatleta e campeão mundial, David Allemann e Caspar Coppetti fundaram a empresa na Suíça em 2010 com uma premissa radical: criar uma sensação de corrida completamente nova. O primeiro protótipo usava pedaços de mangueira de jardim colados na sola do tênis. Funcionou bem o suficiente para ganhar o ISPO BrandNew Award no mesmo ano de fundação.

    Essa história cumpre três funções de marketing simultaneamente: estabelece credibilidade técnica ("foi criado por atletas"), cria distintividade narrativa ("mangueira de jardim") e ancora autenticidade ("funcionou antes de qualquer investimento em branding").

    O Princípio da Origem Narrativizada

    A On não tem uma história de origem — ela tem um mito fundador. Não é sobre o produto: é sobre a obsessão que gerou o produto. Essa distinção é o que transforma um case técnico em uma marca com alma. Toda empresa tem uma história de origem. Poucas sabem usá-la como a On usa.

    Timeline: os Momentos que Construíram a Marca

    2010
    Fundação na Suíça + ISPO BrandNew Award
    Validação de terceiros no ano zero — prova de inovação antes de qualquer escala comercial.
    2012
    Lançamento do e-commerce DTC + On Holding AG incorporada
    Canal direto desde o início: dados de cliente + controle de narrativa + margem cheia.
    2013
    Entrada nos Estados Unidos
    Acesso ao maior ecossistema de mídia e running culture do mundo.
    2020
    Primeira loja própria — Nova York
    Varejo como teatro de marca, não apenas como canal de venda.
    2021
    IPO na NYSE
    Visibilidade de investidor amplifica narrativa de marca e atrai cobertura de mídia espontânea.
    2024
    Parceria multianual com Zendaya anunciada
    Expansão cultural para audiências mais jovens e lifestyle — sem abandonar o núcleo de corrida.
    2025
    US$3,3 bilhões de receita · 30% de brand awareness global
    Escala que habilita investimento consistente e execução premium multicanal.

    Portfólio

    Posicionamento e Portfólio: Premium sem Nicho

    A On se posiciona como uma marca de sportswear premium enraizada em inovação, design e sustentabilidade — com uma missão articulada em torno de "ignitar o espírito humano através do movimento". O running é o coração, mas a expansão para training, tênis e vestuário de uso diário é deliberada e acontece sem diluir a identidade premium.

    Receita por Produto — 2025
    CalçadosUS$3,08Bi
    VestuárioUS$187M
    AcessóriosUS$43,6M
    Receita por Canal — 2025
    WholesaleUS$1,93Bi (58,2%)
    DTCUS$1,39Bi (41,8%)
    Receita por Região — 2025
    AméricasUS$1,91Bi
    EMEAUS$839M
    Ásia-PacíficoUS$562M

    O Crescimento do Vestuário como Sinal Estratégico

    O vestuário On saiu de US$76M em 2023 para US$187M em 2025 — crescimento de 147% em dois anos. Isso não é acidente: vestuário aumenta a frequência de uso da marca, viabiliza looks completos e aprofunda a relação do consumidor com a identidade On além do momento de corrida.

    Inovação de Modelo: Cyclon e Cloudneo

    A On não se limita a inovar em produto — inova em modelo de negócio como mensagem de marca. O Cyclon é uma assinatura mensal que exige a devolução do tênis ao fim do ciclo para reciclagem. O Cloudneo é o único modelo exclusivo do Cyclon — só acessível por assinatura, administrado via plataforma online.

    Esse modelo cumpre três funções simultâneas: sustentabilidade (mensagem de marca), recorrência (retenção de cliente) e diferenciação de canal (o produto só existe no DTC). É a mesma lógica que a Nike usa com membership — mas com argumento de impacto ambiental embutido.

    Brand Building

    Narrativa: Inovação que Significa Algo

    A On compreendeu cedo que tecnologia sem narrativa é especificação técnica. CloudTec e LightSpray existem como nomes porque precisam funcionar como signos — não apenas como descrições de engenharia. A marca investe em transformar a inovação em história, e a história em pertencimento.

    US$415M
    Investimento estimado em marketing em 2025
    12,5% da receita líquida. Em 2023 era 10,9%. A On aumentou proporcionalmente o investimento em marca enquanto crescia — sinal de que crescimento e brand building não são trade-offs, são complementares.

    O Tema "Dream On" Como Sistema de Significado

    A plataforma narrativa "Dream On" ancora toda a comunicação da marca — não como slogan, mas como sistema de significado. Ela conecta a psicologia do movimento (aspiração, flow, superação) com a identidade do consumidor, deslocando o foco da performance funcional para pertencimento emocional. Isso é o que suporta o preço premium: quando você compra On, não compra só amortecimento — compra uma afirmação de identidade.

    "Real Energy": Quando a Campanha Defende o Núcleo

    A campanha Real Energy para a linha Cloudmonster foi projetada para rejeitar explicitamente a cultura performativa de corrida — aquela que glorifica dor, sacrifício e performance como métricas de identidade. A On escolheu mostrar atletas reais em rituais diários, com estética moody e autenticidade deliberada. Resultado: uma campanha altamente produzida que parece o oposto de publicidade.

    Por Que Isso Importa

    Marcas premium que crescem rápido enfrentam um risco: serem percebidas como "da moda" em vez de "autênticas". A campanha Real Energy é uma resposta defensiva a esse risco — um sinal para a comunidade de corrida de que a On não esqueceu de onde veio, mesmo com Zendaya na capa.

    Parcerias

    Parcerias Culturais: Autenticidade Como Estrutura

    A On não faz endorsements convencionais. Faz parcerias estruturadas como participação autêntica — e essa distinção é o que protege a credibilidade premium da marca enquanto ela escala o alcance cultural.

    Roger Federer
    Empreendedor · Não Patrocinado

    A On enquadra a relação com Federer como empreendedorismo, não sponsorship. Federer participa do desenvolvimento de produto, marketing e experiências de fã — não aparece em anúncios como "atleta patrocinado". Essa estrutura gera autenticidade que dinheiro não compra e permite extensão natural para tênis e lifestyle.

    → Princípio: parceria como co-autoria, não como licença de imagem
    Zendaya
    Parceria Cultural · Multianual

    Anunciada em 2024, a parceria com Zendaya foi lançada com a campanha Dream Together — foco em movimento como elemento de conexão entre pessoas. Zendaya participa de designs futuros e edições curadas, expandindo o alcance da On para audiências mais jovens e orientadas a lifestyle sem abandonar o movimento como fio condutor.

    → Princípio: expansão cultural com narrativa de marca como âncora
    Loewe
    Collab de Luxo · Elevação de Categoria

    A colaboração com a maison de luxo Loewe posicionou a On no contexto de moda de alto padrão — algo que nenhuma quantidade de publicidade compraria. Segundo cobertura da Vogue Business, essa collab é parte do playbook de expansão da On de nicho de corrida para marca premium de lifestyle e performance.

    → Princípio: o contexto onde você aparece define o que você é

    O Modelo de Parceria da On em Uma Frase

    A On não paga para aparecer ao lado de pessoas famosas — ela convida pessoas que acreditam no que a marca acredita para construírem algo juntos. Isso muda a percepção do consumidor, a qualidade do conteúdo gerado e a durabilidade do equity de marca que a parceria cria.

    Digital e DTC

    Digital, DTC e a Inteligência do Canal Direto

    A On opera e-commerce DTC desde 2012 — antes mesmo de ter lojas físicas. Essa decisão não foi apenas de canal: foi de arquitetura de inteligência de marca. O canal direto é o único lugar onde a On controla a narrativa completa, o preço, a experiência e a coleta de dados do cliente.

    Estratégia Digital por Mercado
    🌎 EUA + Europa — 85% do e-commerce em 2024

    Lojas online dos EUA e Europa juntas representaram aproximadamente 85% da receita de e-commerce em 2024. E-mail como canal de lifecycle marketing, com sensibilidade regulatória explicitamente mencionada nos filings corporativos — sinal de dependência operacional de dados de cliente.

    🇨🇳 China — WeChat mini program + Tmall + JD.com

    Canal mix completamente diferente do ocidental: mini programa WeChat para engajamento e marketplaces locais para escala. 38 das 67 lojas próprias da On estão na China — maior concentração geográfica de varejo físico da marca.

    📊 Redes sociais como motor de aquisição

    Os filings da On declararam explicitamente que "grande parte do crescimento da base de clientes originou-se de esforços de marketing em redes sociais e outros canais digitais". Social não é suporte — é coluna vertebral da aquisição.

    DTC Como Loop de Inteligência, Não Apenas Canal de Venda

    A On descreve sua loja online como "uma forma de construir inteligência valiosa através de conversa direta com clientes". Isso é o DTC pensado como pesquisa qualitativa contínua — cada compra, cada abandono de carrinho, cada interação é dado que retroalimenta produto, narrativa e alocação de budget.

    Distribuição

    Distribuição Como Marketing: Wholesale e Varejo Próprio

    A On mantém um mix deliberado: wholesale para escala e descoberta, DTC para controle de experiência e margem cheia. Em 2025, wholesale ainda representou 58,2% da receita — a marca permanece presente em varejo parceiro em larga escala, usando os parceiros como canal de legitimidade e acesso.

    🏬 Dick's Sporting Goods (EUA)

    Maior varejista de artigos esportivos dos EUA — presença aqui é validação de escala e acesso ao consumidor mainstream americano.

    🏬 JD Sports (Global)

    Cobertura global com foco em público jovem e lifestyle — alinha com a expansão cultural da On via Zendaya e Loewe.

    🏬 Foot Locker (Global)

    Distribuição em shoppings de alto tráfego — descoberta para consumidores que ainda não conhecem a marca.

    O varejo próprio é tratado como infraestrutura de marca, não apenas como ponto de venda. A On descreve "premium brand hubs" e "formatos de alto impacto" como drivers de engajamento — lojas que criam experiências que o wholesale não consegue replicar. Com 67 lojas próprias e quase 70 "brand hubs", o varejo físico da On funciona como mídia paga que também gera receita.

    A Lógica da Distribuição Dual

    Wholesale para descoberta e legitimidade de terceiros. DTC para experiência, dados e preço cheio. Loja própria como teatro de marca que nenhum varejista parceiro consegue oferecer. Os três canais existem juntos porque cada um faz algo que os outros não fazem — e a On usa cada um para o que ele faz melhor.

    Números

    O Crescimento em Três Anos

    Receita Líquida — US$ Milhões
    2023
    US$1,97Bi
    2024
    US$2,55Bi
    2025
    US$3,3Bi
    DTC — Crescimento 2023–2025
    2023US$739M
    2024US$1,06Bi
    2025US$1,39Bi
    Ásia-Pacífico — Maior Crescimento
    2023US$155M
    2024US$358M
    2025US$562M (+262%)
    Investimento em Marketing
    2023 (10,9%)≈ US$215M
    2024 (11,9%)≈ US$304M
    2025 (12,5%)≈ US$415M

    * Valores convertidos de CHF para USD com câmbio estimado de 1 CHF ≈ US$1,10. Percentuais de marketing são divulgados pela companhia; valores absolutos em dólar são estimativas derivadas dessa conversão e não devem ser tratados como linha de demonstração financeira auditada.

    Competição

    O Cenário Competitivo: com Quem a On Disputa

    O mercado de running premium e sportswear global é intensamente competitivo. A On compete com incumbentes globais e especialistas de crescimento rápido em inovação, credibilidade de comunidade, presença no varejo e relevância cultural.

    MarcaPosicionamentoImplicação para a On
    NikeLíder global de scale, forte DTC via NIKE DirectOn precisa defender diferenciação premium e evitar ser percebida como tendência passageira
    AdidasHerança de performance com pipeline de inovação renovadoOn precisa atualizar narrativas de produto continuamente para não ser superada em momentos de visibilidade
    HokaMarca de corrida de alto crescimento focada em amortecimentoOn precisa diferenciar em sensação, design e narrativa tecnológica — não apenas em cushioning
    BrooksEspecialista runner-first com plataforma de marca clara e crescimento forteOn precisa sustentar autenticidade com corredores do núcleo enquanto expande para lifestyle

    O Risco de Crescer Rápido em Running

    A comunidade de corrida tem memória longa e ceticismo alto. Marcas que crescem via cultura e celebridade enfrentam o risco de serem vistas como "modinha" pelo corredor sério. É por isso que a campanha Real Energy existe, que a On patrocina atletas olímpicos e que Federer é posicionado como parceiro e não como garoto-propaganda. Cada decisão de parceria carrega o peso de proteger a credibilidade com o núcleo enquanto expande o perímetro.

    Aplicações Práticas

    Lições da On para Marcas Brasileiras

    Nos diagnósticos que conduzo, o case da On aparece como referência especialmente para marcas que têm produto diferenciado mas ainda não sabem como transformá-lo em narrativa, e para empresas que crescem via indicação mas não têm sistema de marca que sustente escala.

    01

    Narrativize a Inovação Antes de Escalar

    A On não lançou campanha de awareness antes de ter uma história de origem clara, uma tecnologia com nome (CloudTec) e uma missão articulada (movimento como propósito). Escalar distribuição sem narrativa é escalar commodity.

    → Aplicação BR: qual é a história de origem da sua empresa que prova obsessão com o problema? Se você não consegue contá-la em 30 segundos, o consumidor também não vai.
    02

    Parceria É Co-autoria, Não Licença de Imagem

    Federer não é patrocinador da On — é sócio. Essa distinção muda tudo: a autenticidade percebida, o conteúdo gerado, a longevidade da parceria e o impacto no equity de marca. Parceiro que só aparece em anúncio é caro. Parceiro que acredita é raro e valioso.

    → Aplicação BR: em vez de "contratar" um influenciador, pergunte: quem no meu nicho já usa meu produto ou acredita no problema que resolvo? Essa pessoa vale mais do que qualquer macro-influenciador pago.
    03

    DTC é Inteligência, Não Só Canal

    A On opera e-commerce desde 2012 como "conversa direta com clientes" — não como alternativa ao wholesale. O canal direto é onde você aprende o que o cliente quer antes de qualquer pesquisa formal. No Brasil, marcas que só vendem via marketplace estão cegas sobre quem é seu cliente de verdade.

    → Aplicação BR: site próprio com checkout + e-mail de lifecycle + análise de comportamento de navegação. Esses três juntos já constroem o loop de inteligência que a On usa para retroalimentar produto e narrativa.
    04

    Aumente Investimento em Marca Enquanto Cresce

    A On aumentou o percentual de receita investido em marketing de 10,9% para 12,5% em três anos — enquanto crescia. A maioria das empresas faz o oposto: corta marketing quando o crescimento desacelera. Marcas premium que constroem awareness quando têm dinheiro chegam à crise com colchão de brand equity.

    → Aplicação BR: defina um percentual de receita fixo para brand building (conteúdo, mídia de awareness, eventos) e mantenha mesmo em meses bons. O efeito composto aparece em 12 a 24 meses.
    05

    Varejo Próprio é Mídia que Gera Receita

    As lojas da On não são pontos de venda — são "teatros de marca" que criam experiências impossíveis de replicar no wholesale. Se cada loja gera tanto receita quanto brand equity, o ROI do varejo físico é subestimado quando calculado apenas pela venda direta.

    → Aplicação BR: se você tem loja física, pergunte: ela comunica quem você é ou apenas vende o que você faz? A experiência no ponto de venda é o canal de brand building mais subutilizado no varejo brasileiro.
    06

    Proteja o Núcleo Enquanto Expande o Perímetro

    A On faz Loewe e Zendaya sem abandonar atletas olímpicos e a campanha Real Energy. Expansão cultural e credibilidade de núcleo precisam coexistir — e a marca investe em ambos simultaneamente. Quem só expande sem proteger o núcleo vira moda. Quem só protege o núcleo nunca escala.

    → Aplicação BR: qual é o "corredor sério" do seu segmento — o cliente mais exigente que valida sua credibilidade? Mantenha ele satisfeito enquanto expande para audiências mais amplas. Ele é seu escudo de autenticidade.
    Fonte principal deste artigo: Zwayyed, Z. (2026, março). Marketing Case Study of OnCloud: How On Built a Premium Global Sportswear Brand. LinkedIn Pulse. Complementado por filings anuais da On Holding AG (Form 20-F, 2023–2025) citados na análise original. Valores monetários convertidos de CHF para USD para facilitar a leitura no mercado brasileiro.

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