Professor de Harvard, Observador de Anunciantes
Neil H. Borden (1895-1980) foi professor de publicidade na Harvard Business School. Estudou de perto como empresas anunciantes tomavam decisão e publicou, em 1964, o artigo The Concept of the Marketing Mix, no Journal of Advertising Research — consolidando uma expressão que ele já usava havia anos em sala de aula.
Borden conta que a expressão nasceu de uma imagem usada por um colega, James Culliton, que descreveu o executivo de marketing como alguém que combina ingredientes: às vezes segue receitas dos outros, às vezes adapta com o que tem à mão, às vezes inventa uma nova. Borden gostou da imagem de "misturador de ingredientes" e ela virou o nome do conceito.
Misturador de ingredientes não é executor de tarefa. A metáfora coloca o marketing como decisão de proporção — quanto de cada coisa, em que combinação, para qual mercado. É uma definição de estratégia, não de comunicação.
Uma Lista de Decisões, Não um Modelo Fechado
A diferença principal entre Borden e a versão que ficou famosa é o formato. McCarthy entregou quatro caixas; Borden entregou uma lista de decisões que um gestor precisa tomar, sem pretensão de que fosse exaustiva ou definitiva.
Borden era explícito quanto a isso: o composto varia conforme o negócio e o momento. Não existe mix correto universal — existe o mix apropriado a determinada empresa, diante de determinadas forças de mercado, num determinado período.
O Composto Original, em Doze Decisões
- Planejamento de produto — linhas, mercados a atender, política de novos produtos.
- Precificação — nível de preço, margens, políticas de desconto.
- Marca — nomes, marcas individuais ou de família, venda sob marca própria.
- Canais de distribuição — quem alcança o comprador e por qual caminho.
- Venda pessoal — carga de esforço comercial e como ela se distribui pelos canais.
- Propaganda — volume de investimento e abordagem de mensagem.
- Promoções — ações de estímulo dirigidas ao canal e ao consumidor.
- Embalagem — proteção, apresentação e função de comunicação.
- Exposição no ponto de venda — esforço para garantir visibilidade onde a compra acontece.
- Serviço — o que se oferece junto do produto para sustentar o uso.
- Manuseio físico — logística, transporte e estoque.
- Levantamento e análise de dados — pesquisa e informação para decidir tudo acima.
Ler essa lista muda a percepção do que os 4 Ps comprimiram. Marca, embalagem, serviço e pesquisa estavam ali como decisões próprias, com peso próprio. Na versão condensada, viraram subitens.
O Valor Está na Proporção, Não na Lista
O ponto mais desperdiçado do trabalho de Borden é que o objeto de análise é a combinação, não cada elemento isolado. Dois negócios podem ter os mesmos ingredientes e resultados completamente diferentes pela proporção entre eles.
Um produto com preço premium exige serviço, embalagem e canal coerentes; se qualquer um desses estiver na proporção errada, o preço deixa de se sustentar. Um produto de giro alto depende de distribuição ampla e custo baixo; investir pesado em propaganda com distribuição fraca gera demanda que ninguém consegue atender.
É por isso que copiar a estratégia de um concorrente raramente funciona. Você copia ingredientes visíveis — o anúncio, o preço — sem copiar a proporção invisível que sustenta o conjunto.
Um Item Entre Doze
Vale explicitar o que a lista já mostra: propaganda, promoção e venda pessoal são três dos doze itens. O resto é produto, preço, marca, canal, embalagem, serviço, logística e informação.
Na prática que vejo, a conversa sobre marketing começa e termina nos três itens de comunicação. Quando o resultado não vem, aumenta-se o investimento em mídia. Se o gargalo está em preço, distribuição ou serviço, mais mídia só acelera a exposição de um composto desequilibrado — e o custo de aquisição sobe.
O composto entrega no ritmo do elemento mais fraco. Antes de aumentar verba de mídia, identifique qual dos doze está limitando — quase nunca é o que está recebendo mais atenção.
O Mix É Resposta a Algo Fora da Empresa
Borden não tratava o composto como escolha livre. Ele o descrevia como resposta a forças de mercado: comportamento de compra do consumidor, comportamento do varejo e do atacado, comportamento dos concorrentes e o ambiente regulatório e governamental.
Essa segunda metade do conceito quase sempre é esquecida. O mix não é um cardápio de decisões internas — é um ajuste contínuo a condições externas que mudam. Quando o comportamento de compra muda, um composto que funcionava passa a não funcionar, sem que nada dentro da empresa tenha mudado.
Como Levo Isso Para o Diagnóstico
Eu uso a lista original, não a versão de quatro caixas, quando quero encontrar o que está travando um negócio. Percorro os doze itens e classifico cada um em três estados: sustenta a estratégia, é neutro, ou contradiz o que a empresa diz ser.
Os itens que contradizem são a pauta. E na maioria dos casos são os invisíveis — o serviço que não existe por trás de uma promessa de atendimento, o canal que entrega em prazo incompatível com o discurso, a embalagem que desmente o posicionamento premium.
Depois disso, e só depois, a conversa sobre comunicação faz sentido. Anúncio bom apenas acelera a chegada das pessoas ao composto que você montou. Se o composto está desalinhado, ele acelera a decepção.
Quer saber qual parte do seu composto está desalinhada?
Em uma conversa dá para mapear onde a combinação de produto, preço, canal e serviço está travando o resultado — e o que ajustar primeiro.
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